Um dos meus artistas favoritos é Rodin. Suas esculturas sempre me fascinaram, tanto por sua beleza quanto pelas suas peculiaridades. Seu estilo controverso, aliás, fez com que ele reprovasse repetidamente ao tentar ingressar na Grand École, a Escola de Belas Artes. Os juízes, educados pelo gosto neoclássico, não aceitavam suas técnicas de escultura. Uma dessas técnicas era conhecida como non finito, literalmente significando não terminado.
A técnica vem da filosofia platônica de que qualquer obra de arte jamais se igualará ao objeto a qual ela se inspira. Apesar de não ser uma tradição renascentista, esse pensamento não impediu que muitos escultores dessa época marcassem suas obras com faciebat, o que sinalizaria que ela está inacabada, em progresso. Essa palavra se encontra ao lado da assinatura de Michelangelo na famosa Pietá. Pois é.
A sanha renascentista pela perfeição e verossimilhança, ou seja, fazer com que sua obra pareça algo real, por um lado avançou muito as técnicas clássicas de composição. Por outro, se uma obra nunca irá se equiparar ao seu objeto, quando ela realmente estará completa? Eu também costumo cair nessa cilada nos projetos que eu faço. Aparar mais uma aresta. Consertar mais um bug. Refinar uma transição, um efeito, um campo. No final, a perfeição é só mais um disfarce para não entregar. O mesmo vale para nossa vida, no âmbito geral. A sanha da perfeição vira obsessão em um desejo de chegar ao infinito. Não somos imunes a isso. Nem Michelangelo foi.
Isso me traz de volta a Rodin. Mais precisamente, a minha escultura favorita dele, 'O Homem que Anda'. É uma de suas obras 'inacabadas' mais famosas, e retrata o corpo de um homem em movimento. Porque nós também somos trabalhos inacabados, em progresso. E assim como a escultura, não estamos incompletos, mas sim sempre em movimento.
Então publique seu projeto, conclua sua tarefa, termine o seu post (okay, essa foi mais para mim mesmo). E se você se pegar pensando em mil detalhes que impeçam sua conclusão, escreva ao final: faciebat.